UM CORTEJO DE DEUSES NEGROS
Toda algazarra cessa. Nas calçadas que margeiam a rua, o público faz silêncio. Bêbados, papangus, travestis, crianças impertinentes, apitos, confetes, cloretis e serpentinas, tudo cala. Mal se distingue de longe o baque retumbante e grave do zabumba, cada coração passa a bater com ele (mesmo que seja de medo, como o dos meninos). Depois, o grito breve e metálico do triângulo corta a gravidade do ar, como a pedir socorro. Respiração suspensa. Aponta o baliza, no início do quarteirão, com seu turbante, rosto pintado de azeviche, calções e mangas fofas, traje de cetim nas cores do seu maracatu. Logo o nome se anuncia por exclamações: É o Estrela Brilhante, o Ás de Ouro, o Leão Coroado, o Ás de Espada, o Ás (e depois Rei) de Paus, o Rancho de Iracema, o Vozes d’África, o Nação Baobá, o Rancho Alegre, o Nação Uirapuru, o Rei de Espada, o Nação Africana! Passa, o baliza, feito um batedor, um saltimbanco, um capoeira, um passista de frevo, um acrobata ou malabarista de circo, ele faz suas evoluções, gira a baliza (um bastão enfeitado que traz nas mãos), exibindo toda a sua maestria, enquanto abre e anuncia o espetáculo.
Este começa solene, com dois sentinelas negros guardando uma porta imaginária, um portão que com eles caminha. Trazem cada um uma lanterna acesa, dourada com o interior vermelho, sobre a ponta de um mastro, como as lanternas da procissão do Senhor Morto. Avançam com a lentidão dos rituais sacros, lembrando solenidades marciais, talvez o certejo fúnebre de um rei guerreiro de Moçambique. Com sua luz, abrem caminho para o estandarte luxuoso e pesado, com o nome do maracatu e seu símbolo em alto relevo, uma estrela espelhada, um leão dourado, ou um naipe do baralho.
O primeiro cordão é o dos caboclos, guerreiros com cocares de penas, arco e flecha, marcando o ritmo do batuque, que de tão longe quase é adivinhado. Curvados como um escritor sobre sua escrivaninha, rabiscam o desenho trôpego de seus passos, com muito cuidado sobre o calçamento. Rostos terríveis. Dão três, quatro passos e retém a marcha, ao baque do zabumba, como a espreitar o inimigo. Gustavo Barroso diz que eles imitam o caminhar “retrógrado e balanceado dos crustáceos”, do siri, do aratu ou do caranguejo guaiamum. Já outros falam que cambaleiam embriagados pelo aroma da jurema.
Nas baianas, o mesmo passo lembra a cadência do caminhar das negras escravas, vendedoras de frutas, vergadas sob o peso de seus balaios, ou das filhas de santo fazendo mesuras para saudar suas mães. Giram como sois, com suas saias rodadas, enfeitadas de rendas e babados, dando boas vindas às suas divindades. Com este mesmo ar divino, já desfilavam nas procissões de Corpus Christi, da Bahia colonial, por sugestão dos jesuítas e com permissão da igreja católica. Depois foram para as escolas de samba, mas vieram dos afoxés e dos maracatus. De suas bocas, escuta-se fluir o canto roufenho e encatarroado das loas e toadas do maracatu, pontos de macumba, palavras ininteligíveis em línguas africanas, pedaços de frases em português, vozes que parecem vir de bem além de suas gargantas, das almas dos negros velhos, quem sabe.
Depois das baianas vem o balaieiro carregando sobre a cabeça um grande cesto com toda a abundância de suprimentos, com toda a fartura do mundo. Quando mais cheio o balaio e mais naturais as frutas que carrega, mais mérito tem o balaieiro, se a graça e a leveza de seu bailado não se altera.
Pode aparecer também a feiticeira, com um dos braços dobrados para trás, corpo encurvado e cachimbo na boca. É a preta velha, que muitas vezes aparece ao lado do preto velho, como nos cortejos das mais antigas cortes africanas que chegaram no Brasil.
Ao seu lado, vem a calunga, uma boneca pretinha, vestida como uma baiana do maracatu, o mesmo traje do brincante que a conduz. Muitos são os estudos sobre sua origem e as interpretações sobre seu significado, mas entre todas as possibilidades, é bonito imaginá-la como a representação do mar, de la mer, o mar feminino dos franceses, o grande mar atlântico que separa e liga os negros de e à sua mãe, à mama África, como canta Chico César.
Agora já se divisa nitidamente o som de cada instrumento da percussão. Além do zabumba (o coração da mãe África que bate), e do triângulo (seu grito de dor), a caixa surda (os passos atordoados dos filhos), o gonguê e o ganzá (seu fino molejo, sua sensualidade contida). O som parece emergir das entranhas da terra, hipnótico e embriagador, fazendo o chão estremecer. E nada mais existe ali, senão aquele cortejo majestoso que vem do começo do mundo, de além oceano, de terras do rio Zaire, de Cabinda, de Benguela, de Angola, do glorioso império do Congo, atravessando os labirintos do tempo, a peste, a guerra e a escravidão, incólume e intocável, feito um desfile de semi-deuses, que avançasse, superior e bamboleante, sobre as ondas de um mar de águas graves e profundas.
Acompanhada por pajens e açafalas, aproxima-se a corte africana, com seus leques emplumados, braços estendidos, sorriso eterno na boca, como se dissesse: - Venha a mim o universo com todas as suas maravilhas! Nobreza não de mando ou opressão, corte de divindades, de gente que anda deslisando sobre a superfície e mal toca o chão, para quem tudo é graça, gentileza, gestos mágicos e muito delicados. Evém lá Príncipe Sueno, sonho ou sereno, filho do imperador do Congo, Henrique Cariongo, que deu combate aos infiéis, junto com os portugueses. Com ele, vêm as princesas, que cada vez aparecem em maior número, fazendo salamaleques e mesuras ao povo, como a dizer: salve verdadeiro soberano, senhor do nosso brinquedo.
Mas, como o guarda-sol rodopiante que a proteje, como os grandes abanos que a saúdam, todo este cortejo só existe para emoldurar a glória e a majestade da rainha, para celebrar sua solene passagem. O rei é apenas um parceiro, um coadjuvante. A rainha é a estrela brilhante, a leoa dourada. Talvez seja a negra Ana de Souza ou Ginga Nbândi, sábia ialorixá inimiga do colonizador branco, soberana de Angola, Dongo, Matamba e Luanda. Talvez seja a própria mãe África, a mãe Terra, a mãe de todos os homens e de todas as mulheres, o princípio feminino de Deus, gerador do universo. Entre tantas belezas, brilhos, sedas e pedrarias, entre tanta pompa e opulência, ela é como um cisne entre patos, um pavão (a rainha do maracatu é o pavão misterioso da canção do Ednardo) entre galinhas de angola. Nada brilha mais que os dentes claros, que o branco dos olhos, ou que o falso negrume da tez, no seu rosto pintado de tisna e vaselina. Nada é tão solene quanto sua lentidão de deusa, sua cadência elegante, seus braços abertos e receptivos, seu porte altaneiro. Nela, tudo é maravilha e encantamento. Talvez, seu sorriso seja o útero da terra, a Pasárgada, o céu dos orixás, o ninho do grande reencontro, para onde caminham os maracatus. (Jornal O Povo, 01/03/1998)
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