Não, não. Não há queimadas devastando a serra. Mas há, sim, fogo de densas proporções aquecendo Guaramiranga. Um fogo de outra ordem, das paixões fora da ordem, pois começou ontem o Festival Nordestino de Teatro que até 11 de setembro vai mais uma vez acender a fogueira sagrada e profana que, desde 1993, propaga luz e calor na cidade do frio.
Esperemos, portanto, que o incêndio se alastre e os incendiários impeçam os bombeiros de debelar com seus extintores a flama das transgressões já que os atores são, via de regra, os desregrados homens-bomba, as insubmissas e quase suicidas tochas humanas que se reinventam e se aventuram até mesmo no que desconhecem e naquilo cujas diretrizes apenas vislumbram. Afinal, ao contrário do que afirma o senso comum, o teatro não está em crise; o teatro é em crise.
Nós, os do palco, somos alquimistas em processo alquímico sobre nós mesmos, encarnando a alquimia de exercitar no próprio corpo a alteridade. Em quaisquer personagens, vivemos o dilema de um Hamlet singular que entre ser e não ser decide ser e ao mesmo tempo não ser, por sermos protótipo e duplo, criador e criatura, lagarta e borboleta, a ambivalência e a metamorfose da crisálida.
Aos atores, no entanto, não basta apenas representar papéis emprestando a eles bocas e palavras no desenrolar das histórias, pois não somente na ficção, mas também na concretude do real faz-se necessário construir a História. Que o Festival Nordestino de Teatro seja, então, uma oficina de ideias a incendiar as cabeças e a arder no coração daqueles que se iluminam como personas e se inflamam como pessoas mobilizadas para propor e fomentar mais e mais políticas públicas que rompam convenções e conveniências do status quo. Afinal, sem revoluções não há revoluções e todos os gritos ficam parados no ar quando o teatro não tem voz ativa para ir contra a corrente da roda-viva de círculos viciosos e circuitos viciados.
Por sua militância, a classe teatral já vem comprovando que não fura os próprios olhos feito Édipo nem fica em vão esperando Godot. No passado, resistiu aos desmandos e aos descasos, rebelou-se contra o neocoronelismo cultural que à la Bernarda Alba resguardava seus afilhados e fechava as portas da casa como se o Estado fosse propriedade do governo. Burocratas de plantão monopolizavam recursos para as programações geradas e geridas segundo interesses partidários ou vontades de ocasião. Usando e abusando de um poder circunstancial pareciam confundir a instauração de um novo Estado com a restauração do Estado Novo. Era o getulismo redivivo sob o disfarce de um neoliberalismo que se anunciava como detentor de modernidade administrativa.
Atualmente, ante a realidade dos editais públicos, novas dinâmicas democráticas de relação devem ser discutidas no sentido de aprimorar o debate sobre a expansão dos mecanismos fomentadores da produção artística cearense e a premência de ainda mais consistentes e sistemáticos investimentos. Se na atual gestão da Cultura já superamos a instrumental, a crítica e, por vezes, oportunista lógica que confundia o interesse do público com o interesse público, consideremos agora temas como o fomento a processos de interlocução, intercâmbios de pesquisa, parcerias intergrupais, partilha e multiplicação de saberes.
Sendo o teatro uma arte que depende de sua imediata inserção social, estejamos atentos para estreitar nossas sintonias com as comunidades em que atuamos levando em conta a dualidade do artista que é não apenas um agente cultural, mas também e simultaneamente um crítico dos agentes culturais.
É com ideais inflamáveis assim que em Guaramiranga a Fênix do teatro renasce das cinzas para continuar incendiando corações e mentes.
Ricardo Guilherme -Escritor e teatrólogo
guilherme@uol.com.br
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