O Abismo e seus intervalos, a incerteza viva:
Agora não se ouvia nada. Só o silêncio. Só o abismo daquele silêncio.
Nos intervalos do tempo dentro de cada um, sombra e luz bordado a jenipapo, um bode berra dentro de mim, rosto se multiplica pendurado na tela escura, um bendito, zoom ladainha, incelença na estrada. O cordão arrebenta incerteza. Olhar reflete o espanto da imagem no concreto. Terra protegida, seres demarcados, inscrita na matéria.
Fundamentalmente, é uma investigação sobre arquivo. Mas, para que apontam? o ar está cheio de poeira. O chão está coberto de incontáveis folhas imaculadas em que pisam silhuetas assustadas, brancas como fantasmas. Não está claro o que está acontecendo; as pessoas fogem de uma nuvem de silêncio.
Tudo o que resta é uma incrível pilha de restos incompreensíveis e vagamente patéticos: O verdadeiro presente das coisas, da matéria, está agora exposto ali, estendido no chão: uma mistura de pedaços de passados desconexos, lançados simultaneamente neste agora congelado em pedra. Nos resta juntar as sombras dos seres e expormos na galeria do futuro.
O mundo perpetuamente novo, que levou a decretar o fim definitivo da história, não passa de silêncios e sombras. Manchas onde as equipes de intervenção já estão ocupadas limpando tudo, para fechar essa lacuna inconcebível na tela da realidade o mais rápido possível. Nunca encontraremos os milhares de mortos cujos corpos esmagados e queimados foram reduzidos a uma mistura de
restos de carne e trapos manchados, inextricavelmente misturados com os restos de concreto e sucata onde nenhum anjo ousa olhar.
Esta pesquisa está sendo desenvolvida na residência Acho imagens, ateliê Casa Campinas e na pós graduação no programa de antropologia da UFRN. As imagens e referências de trabalho e metodologia são fruto de um desejo de trabalhar nessa interdisciplinaridade que o artista pesquisador passa a habitar os arquivos e as memórias. Obras em Tecido 2,00 x 1,20; 2,00x1,40
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